quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Anormal

Acordou mais atrasado que o normal.
Se arrumou mais apressado que o normal.
Tomou café, saiu de casa e entrou no ônibus mais rápido que o normal.

Sentou em um banco que não era o seu normal.
Ao lado de uma mulher com uma beleza fora do normal.
Puxou papo. Conversaram. Se gostaram e marcaram de se ver.

Tudo muito anormal.

Cinema a noite: filme ruim e pipoca ruim.
Voltou para casa sozinho e aliviado.
Sua vida havia voltado ao normal.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Don Camilo

Todos sabem que Don Camilo não perde. Que, no poker, não existe ninguém melhor. Isso lhe rendeu status, fama e poder. Durante anos, poucos ousaram desafiar Don Camilo. E, com vergonha e sem dinheiro, os perdedores desaparecem no mundo. Era como se houvesse uma maldição sobre os que perdem para ele. E todos perdem.

Antônio já havia ganho campeonatos de poker, coisa pequena, dinheiro o suficiente para se manter e comprar um carro popular. Mas tinha talento e pressa. Por isso desafiou o grande Don Camilo para subir logo ao topo. Vendeu o carro, hipotecou a casa e emprestou dinheiro dos concorrentes de Camilo em outros negócios, relacionados a Colômbia ou algo parecido.

Na casa de Don, em uma mesa redonda, Antônio espera com mais dois homens. O primeiro, o próprio filho do satanás, o primogênito do dono da casa. Famoso por gostar de poker, mas perder grandes quantias em jogos. O segundo, um veterano dos grandes torneios, que durante anos juntou coragem para desafiar o grande jogador.

Don entra na sala. Perto dos seus 60 anos, o diabo tem uma barriga e uma papada que falam algo sobre respeito e poder. Terno risca de giz e um chapéu com o mesmo estilo. Antônio não achava que estereótipos assim ainda existissem. Parece que o próprio Winston Churchill havia desistido da guerra para jogar baralho.

Ele acende um charuto, o dealer se aproxima, e o jogo começa. Antônio repara que o filho de Don tem a mesma habilidade para baralho que uma foca selvagem. E não se surpreende por ele sair primeiro com um blefe ridículo. Já o profissional demora mais tempo, mas logo aposta todo seu jogo em uma trinca e perde para um full house do Don.

Sobram apenas os dois na mesa. A experiência contra o talento. Don olha pela primeira vez para os olhos de Antônio e faz um sinal com a cabeça. Parabenizando o adversário. Os dois sabem esconder o jogo, os dois sabem se arriscar na hora certa e os dois sabem a hora de fugir. Horas se passam, charutos se acabam e a sorte de Antônio mostra a sua cara. Sua quantidade de fichas já é o dobro das de Don.

Apenas o novo, o velho e o dealer continuam na sala. Antônio aposta a quantia de fichas de Don, olha para suas cartas, olha para os olhos do adversário, e rapidamente volta a encarar sua mão. O velho capta esse olhar e encontra ali um blefe. Confiante em sua trinca de reis, ele paga para ver.

Os lábios de Antônio esboçam um sorriso. Ele mostra sua mão com dois ases, e um terceiro na mesa. O Don abre as cartas, assumindo a derrota. O vencedor abre os braços para juntar suas fichas. Feliz o bastante para não ouvir um estalido de metal, seguido pelo som característico da pólvora ecoando em um cano de revólver. A dor e a surpresa chegam ao mesmo tempo. E com elas, o verdadeiro motivo pelo qual ninguém, absolutamente ninguém, vence Don Camilo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Rafaela

A Rafinha tem 1,65 de altura, cabelos loiros, seios fartos e um rosto lindo. Ela ganha a vida com sexo, mas não do jeito que você está pensando. Ela deixa mulheres felizes, mas também não é do jeito que você está pensando.

Ela é contratada por esposas para ser a amante de seus maridos infiéis, e fazê-los sofrer com o mais doloroso movimento de pélvis que existe.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Filmagem

Tudo está errado, muito errado. Ele não entende como tratam tão mal alguém como ele, simplesmente não entende. Para começar: o seu suco não é natural, a sua cadeira fica longe da cadeira do diretor e o seu camarim não existe.

Enquanto espera pela sua cena, ele pensa em como a industria cinematográfica decaiu. Lembra de como era melhor tratado nos anos 90, e dos antigos falando com saudades da década de 80. Enquanto, hoje, ninguém sabe como tratar uma estrela.

Falta pouco, agora. A maquiadora aparece para fazer seu trabalho, muito de qualquer jeito, na opinião dele. Troca suas roupas pelas da cena, no mesmo espaço onde outras também se trocam. Pragueja, de novo, pela falta do seu próprio camarim.

Mudança de cena, chamam seu nome. Ele caminha até o seu lugar, relembrando a cena mentalmente para não cometer nenhum erro. No caminho, um camera bate ombro a ombro com ele. Uma provocação clara.

Já chega, pensa. Memoriza o rosto do camera e planeja como acabar com a carreira dele e dos outros relacionados a esse filme. Porque ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de destratar o figurante morto número 21.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal

Já era quase Natal, as pessoas iam para suas casas, para suas famílias, para suas festas. Mas, para ela, era um pouco diferente.

Dentre todas as pessoas no mundo, ninguém imaginaria que ela, logo ela, passaria o Natal sozinha. Sem uma pessoa para brindar, ou algum presente para receber.

Pegou-se pensando se esse ano seria diferente. Se uma visita, qualquer que seja, apareceria em sua casa. Mas sabia que isso não aconteceria. Que era tolice alimentar esperanças.

Em sua casa, estendeu-se no sofá e ligou o som com a música no máximo. Assim não precisaria ouvir os barulhos e risos felizes que insistiam em atravessar as paredes e chegar aos seus tímpanos.

Ouviu a porta abrir. Viu seu marido entrar, pegar um chapéu, e sair correndo para o trabalho. Com um “Feliz Natal” dito às pressas no meio de tudo. Suspirou. Ele iria trabalhar na noite de Natal, para variar.

Levantou e caminhou até as bebidas dele. Preparou um copo de whisky com gelo para ela mesma. Voltou para o sofá e ali ficou. Esperando o Natal acabar. Bebendo. Sozinha. Sem ninguém.

Porque não havia nada mais triste no Natal, do que ser a verdadeira Mamãe Noel.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Em uma praça

Ela sentou no mesmo banco que ele, mas ainda mantendo distância.

Ele olhou e sorriu, sem saber que sorria. Com tantos outros bancos vagos, ela sentou logo no mesmo. Mas longe o bastante para não demonstrar arrependimento.

Ela havia errado, havia exagerado, e agora sabia disso. Que havia feito besteira. Mas seu orgulho era demais para pedir desculpas.

Ele notou o arrependimento no olhar dela. Notou os braços que se abraçavam por não saber o que fazer. Notou principalmente o cabelo, que ela tanto cuidava, desarrumado.

Ela levantou os olhos e encontrou os dele em resposta. Abriu a boca, mas a voz nem da garganta saiu.

Ele riu, sem malicia. Moveu um pouco para o lado e passou o braço por cima dos ombros dela.

Ela enfiou o rosto na camisa dele, o abraçou, e chorou.

Eles ficaram ali. Pouco tempo ou muito tempo, eles discordariam. Ele descreveria como minutos. Ela, como horas.

Até que, ainda rindo, ele afastou o abraço dela e se levantou. Tirou a carteira do bolso e caminhou pelo parque. Um pouco envergonhado por dar o braço a torcer.

Ela ganhou. E sabia disso. Limpou as lágrimas e continuou sentada. Comemorando enquando assistia seu pai procurar outro balão para comprar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Brilho

Não sabia de onde havia vindo. Só sabia que existia. Era uma noite estrelada quando ele saiu do chão e, sem saber o porque, subiu rapidamente aos céus. Algo ardia dentro dele, o impulsionava. Subiu fazendo barulho, brilhando e rindo.

Quando notou, não estava sozinho. Olhou em volta e viu outros iguais a ele. Subindo, brilhando e rindo. Parecia uma competição entre quem ia mais alto, quem brilhava mais, ou quem fazia mais barulho. Todos se divertiam, mesmo sem saber porque estavam ali.

Então observou que muitos já estavam a sua frente, e que, quando chegavam, ao céu brilhavam mais que durante todo o caminho até lá. Mas, logo depois, desapareciam. Então o medo lhe veio. Medo sobre o que acontecia depois do grande brilho, do grande estouro, do grande riso. Depois de desaparecer.

Olhou para baixo e viu o chão, lotado de pessoas assistindo ele subir, com os olhos vidrados. Viu crianças com a boca aberta, agarradas as roupas dos mais velhos. Olhou para cima, e viu outros como ele subir, brilhar e sumir. Então percebeu, que não importava o que havia do outro lado. A subida e o fim inevitáveis, mas também eram tão belos, que valiam a pena.

Por isso fez força e subiu ainta mais alto e mais rápido. Rindo alto e fazendo barulho. Então no seu grande momento. No seu último brilho. Não havia nada além da alegria pela bela subida que havia feito. E, naquela noite, ele se foi sabendo que havia sido o mais belo dos fogos em um céu estrelado.