segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Recomeço

Não sabia o porquê, mas precisava escrever. Escrever qualquer coisa, com ritmo ou não, com personagens ou não. Já havia dias que escrevia mentalmente. Personagens, cenas e histórias.

Mas não sabia o que fazer, assim deixando elas de lado. Esquecia o nome das personagens e o motivo das histórias. Mas sabia que estavam lá, quietas, esperando pular para as letras e ganhar vida.

Decidiu. Voltaria a escrever. Não porque esperava ganhar algo com isso, mas porque gostava. Ligou o computador. Colocou uma música ao fundo. Sentou e esperou.

Nada veio. Trocou a música uma, duas, dez vezes. De nada adiantou. Xingou e se levantou. Já estava alcançando o controle da TV quando parou. E, com o olhar perdido no nada, refletiu. Refletiu tanto que voltou para o teclado.

Assim recomeçou do mesmo jeito que, um dia, começou.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Então, o que acha do inferno? [2]

Carlos, por acidente, encontrou sua mulher no inferno. Surpreso, a observou de longe durante um tempo. Quem diria, a Renatinha no inferno. Logo ela, que sempre fazia tudo certo: organizada, bem humorada, confiável e bondosa com tudo e com todos. Se havia alguém que ele nunca mais imaginou ver, era ela. Pensou no quanto ela devia ter mudado depois de sua morte, pobrezinha.

Carlos acenou de longe, ela não viu. Ela estava olhando para baixo, com o olhar perdido, e não viu quando ele se aproximou.

- Oi!
- Oi, nossa! Carlos?
- Eu mesmo. Quanto tempo, não?
- É, da última vez você tava…
- Morto?
- É!
- Pois é. Nunca imaginei encontrar logo você por aqui.
- Uhum – ela sorriu sem graça.
- Qual o motivo que trouxe você aqui?
- Todos os motivos?
- Não, só o principal.
- Adultério.
- Nossa. Então você casou depois da minha morte?
- …

E, no silêncio dela, Carlos descobriu um pouco mais sobre a dor do inferno.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Acidente

Perto da meia noite, durante a chuva, um carro derrapou por causa dos pneus carecas. O motorista ficou sozinho no meio da estrada. Sofreu um ferimento grave pela falta do cinto de segurança que, a tempos, havia quebrado.

Sentindo a morte perto ele resolveu usar seu último esforço e se declarar para o grande amor da sua vida. Pegou o celular e com dificuldade discou o número. Do outro lado da linha:

- Você não possui créditos para realizar chamadas.

E, pela primeira e última vez, o motorista se arrependeu de ser tão mão de vaca.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Amor

O coração dela bate acelerado. As mãos suam e os olhos não piscam.
- Ana Lúcia?
- Sim?
- Todo este tiempo que estamos juntos, tem sido o mais feliz da minha vida.
- Uhum…
- E yo gostaria que durasse más, mucho más.
- Oh, Henrico – os olhos dela se enchem de lágrimas ao ver a caixinha preta.
- Você aceita ser minha mujer? Na alegria? Na tristeza? Na saúde e na doença? Para siempre? Para todo siempre?
- Aceito! Claro que aceito.

Eles se abraçam e se beijam.
Ela pensando no casamento.
Ele no green card.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Horário de Almoço

11:50

Faltam 10 minutos para seu horário de almoço, e Antônio já começa a errar pequenas coisas no trabalho. Na realidade, já faz meia hora que perdeu o foco e só consegue pensar no almoço.

Não porque esteja com fome, muito menos por estar cansado. Mas por um motivo de um metro e setenta, cabelos castanhos, pele clara e um par de olhos castanhos que, para os outros, não tem qualquer graça. Mas para Antônio, a... para Antônio aquele olhar é o paraiso.

12:00

Chega de trabalho para Antônio. Levanta-se, veste o casaco e deixa para trás aquela colméia de cubiculos.

Um sorriso aparece em seu rosto, agora começou a melhor hora do seu dia. A que faz o dia valer a pena, quando anda vinte quadras a mais e não sente qualquer diferença. Quando gasta o dobro do seu vale para vê-la. Quando faz tudo para isso.

No caminho passa frente a uma loja de flores. Pensa se deve comprar um buquê. Afinal de contas, já fazem quatro meses. Não que namorem a quatro meses, não que se conheçam a quatro meses, não que ela sequer saiba que o nome de Antônio é Antônio. Mas, na cabeça dele, é um aniversário.

12:30

Antônio senta-se a mesa e espera ser atendido. Descartou a idéia do buquê no caminho, ficou com medo de assustá-la. Algo incrivelmente esperto, principalmente vindo de Antônio.

O alvo do seu afeto sai da cozinha, com seu usual uniforme amarelo claro e um avental vermelho. Os cabelos castanhos enrolados em um coque, e uma redinha em volta. O coração de Antônio bate mais forte.

Ela anda em sua direção, Antônio sorri e ensaia mentalmente como o pedido do cardápio. Mas ela passa reto e outra garçonete toma seu lugar. Um pouco mais baixa e mais velha, com a metade da beleza e o dobro do peso. Ela para ao lado de Antônio com uma caneta e um bloquinho em mãos.

Antônio diz que vai esperar um pouco. Mas a garçonete, cuja respiração lembra um rinoceronte com asma, não sai do seu lado. Ele desiste, “não é hoje”, pensa. Pede o prato do dia e uma coca-cola.

12:45

Seu almoço chega, e ele começa a comer com calma. Não quer voltar para o trabalho. Além de que, enquanto come, observa o grande amor de sua vida. Como ele queria ao menos saber o nome dela. Mas parece que seu bilhete sugerindo crachás, de dois meses atrás, não surtiu efeito.

13:10

Antônio já comeu um terço do seu almoço, talvez um pouco menos. A comida já está fria, a coca sem gás, mas ele não liga. Está tomando a sua dose diária de bom humor, para aguentar mais um dia, já esperando pelo almoço de amanhã.

Leva o copo à boca para mais um gole e, ao mesmo tempo, ela volta de uma mesa, passando ao seu lado. Ele a encara, ela olha de volta, e seus olhos se encontram. Antônio leva um susto, sua mão vacila e o copo cai, causando uma enchente de refrigerante em sua mesa. Junto com o copo parece que o mundo de Antônio também cai.

Então, talvez por milagre, ou pelas posições dos astros, algo além explicação acontece. A garçonete abre um sorriso e tira um pano de prato do bolso do avental. Puxa a cadeira da frente, abrindo espaço, e começa a limpar a mesa, rindo.

- Você tem que tomar cuidado com copos, eles são perigosos!

Antônio estava atônito, com a boca idiotamente aberta. Ela era tudo o que ele não era: linda, simpática e divertida. Devia ser inteligente também. Antônio não fala nada. E, com muito trabalho, dá uma risada sem graça. A garçonete ri dele, sem maldade, quase que carinhosamente.

- Prazer, meu nome é Michele. E o seu?

Antônio quase perde a fala. É o seu momento. E pensar que já estava perdendo as esperanças. Agora é só falar seu nome, tão fácil. Mas como um nome tão comum como Antônia poderia combinar com Michele ele não conseguia imaginar.

Ele abre a boca, mas sente sua voz falhar. Iria gaguejar, tinha certeza disso, sempre gagueja quando fala com mulheres. Fecha a boca e olha para Michele. Seus olhos piscam sem parar. Sua boca fica seca. Sua testa começa a suar e uma contração começa do lado direito da boca. Droga, seu tique nervoso queria se mostrar.

Enquanto isso Michele apenas olha para Antônio, esperando resposta. Mas ele apenas baixa a cabeça. Abre a carteira. Deixa uma nota sobre a mesa. Levanta-se, e vai embora sem falar nada.

15:42

Todos se assustam quando, sem motivo, Antônio começa a falar o próprio nome.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Então, o que acha do inferno?

Na verdade, Carlos já não achava tão ruim. Nos últimos tempos ele havia se acostumado com o cheiro de enxofre e o calor excessivo. E, diferente das pessoas que gritavam eternamente “Por quê? Por quê?”, ele já estava calmo e aceitava a situação. Sabia que merecia esse destino, com um certo orgulho até, e estava aprendendo a conviver com ele.

Aliás, quando parava de gritar durante as torturas, e a levar com indiferença, a maioria dos carrascos deixavam-no em paz. O que fazia sobrar tempo para passear pelas terras infernais. E, tirando a paisagem meio repetitiva e o clima quente, era algo prazeroso.

Andando, conhecia algumas pessoas, conversava com outras e chegava a gostar do lugar. Achava o fato de todos se entenderem em uma só língua, agradável. Afinal convivia com pessoas de todos os lugares do mundo, de todas as religiões e de todas as etnias. Conhecendo diferentes realidades e histórias, nenhuma com final feliz, é claro.

Chegava a gostar do seu novo mundo. Não como gostava do seu trabalho, da sua vida na terra e etc. Afinal, no inferno ele quem era mal tratado, e não ele quem maltratava. Mas achava que poderia fazer a sua eternidade um pouco mais interessante do que três sessões de tortura diárias com gritos de agonia.

Em suas conversas descobriu que o inferno era dividido, e que o seu era um dos mais simples. Férias de verão, como alguns torturadores chamavam. Carlos ficou feliz com a notícia por um tempo, pareceu que sua eternidade não seria de todo o ruim afinal. Mas depois se chateou. Tinha uma péssima reputação em vida. Era vil, cruel. Como havia acabado em um inferno leve? Se o vissem ali, fariam comentários, provavelmente ririam. Já até imaginava:

- Lembra do Carlos Fernandez?

- Lembro, que que tem ele?

- Tá no inferno dois!

- Sério?

- Uhum.

- Sabia, aquela pinta toda nunca me enganou.

- Pois é, quem diria? Logo ele, um homem tão malvado.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

1º de Abril

Sentado à beira de uma calçada, ele lembra de como tudo começou com algumas simples mentiras. Que uma mania infantil o levou para aquela situação.

Sentado, sozinho, sujo. Suas roupas rasgadas pelo uso sem trocar. Todos os seus pertences repousando em uma mochila velha ao seu lado. Aquilo era o seu mundo, aquela rua movimentada na frente, aquelas pessoas passando e aquele cheiro horrível. Que ele sabia ser dele.

Nesse 1º de Abril ele fica esperando, como em todos os outros, que as pessoas saíam de trás dos carros estacionados e de dentro das casas. Falando que é tudo mentira. Que os últimos 10 anos foram apenas brincadeira. E, mesmo sendo loucura, ele espera por isso, fielmente, todo ano.

Lembra-se da infância, da família e dos bons momentos. Tão distantes agora. Lembra de como brincava com a sua imaginação quando criança, e do quanto gostava disso. Tanto, que nunca parou.

Recorda também dos amigos se distanciando. Dos pais preocupados. E do “tio” que ele visitava duas vezes por semana para conversar, deitado em um sofá estranho.

Uma lágrima escorre pelo seu rosto, abrindo caminho pela sujeira. Quer chorar, da mesma forma que chorava na escola, no banheiro. Escondido das outras crianças, que dele riam. Ele ainda ouve as risadas, e vê os dedos apontando.

Agora, pelo menos, ele tem amigos de verdade. Eles são estranhos, e podem até não conversar com ele. Mas, de alguma forma, sente que eles dedicam a própria vida para ele. Sente-se especial.

Fica olhando o movimento, esperando as pessoas do seu passado finalmente falarem que era tudo brincadeira. Só não entende porque eles não vieram no 1º de Abril dos outros anos. Também não entende porque aquelas crianças do outro lado da rua o encaram. Devem achar ele louco. Aquelas três, carecas e com a pele levemente azulada.

Decide que ainda falta muito para o dia acabar. Que o jeito é ignorar as crianças, esperar e ensaiar a sua cara de surpresa.