quarta-feira, 14 de julho de 2010

Os trabalhos de Hércules valem um cisco. Dois, não.

Hércules, filho de Zeus, matou o leão de Nemeia e a Hidra de Lerna. Capturou a Corça de Cerineia e o Javali de Erimanto. Desviou o curso de dois rios para lavar os currais do Rei Aúgias. Destronou a rainha das amazonas. Castigou o gigante Diómedes, filho de Ares. Montou o terrível Touro de Creta. Exterminou o gigante Gerion, monstro de três corpos, seis asas e seis braços. Segurou os céus para que Atlas colhesse os pomos de ouro do Jardim das Hespérides. Trouxe o cão Cérbero do mundo dos mortos apenas com a força. Libertou Prometeu de seu martírio. Estrangulou o gigante Anteu, filho de Gaia. Criou o Estreito de Gibraltar separando dois montes. E, depois disso tudo, ganhou uma piscada de seu pai.

Igual a um cisco.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Salada de Frutas

De olhos vendados no pátio, um menino diz não enquanto seu amigo pergunta se ele quer beijar a menina da vez. Sua resposta continua essa, até que ele ouve mais ênfase na pergunta e, conforme combinado mais cedo, aceita. Segundo o trato, na sua frente está a maior gata da quarta série, apenas esperando por ele. Perguntam: pêra, uva, maçã ou salada mista?

Salada mista, responde ele decidido.

Tiram a venda, e a menina é o contrário daquela que ele esperava. Droga, pensa, deveria ter escolhido pêra.

domingo, 9 de maio de 2010

A maior dedicatória da minha vida.

No começo da minha história, era apaixonado por ela. Ela que me ensinou a escrever sem gastar tinta com palavras erradas. A não julgar ninguém pela capa e a respeitar o estilo literário de cada um. Continuamos assim pelos próximos capítulos, com ela cuidando para que nenhuma folha minha fosse dobrada.

Depois de algum tempo as coisas mudaram, e senti até um pouco de vergonha. Principalmente quando ela fazia questão de relembrar uma página que eu preferia esquecer. Ou quando me chamava por algum nome que não devia sair do meu prefácio.

Outros personagens entraram em minha história, e ela ficou cheia de ciúmes. Então comecei a tomar minhas próprias decisões, e ela fazia de cada capítulo um drama. Mas tudo isso passou, e cresci para me tornar um personagem complexo, até mesmo para ela.

A história continuou e, atualmente, dedico um capítulo por ano só para ela. E faço de tudo para que seja inesquecível, para que a minha história e a dela voltem a ser uma só.


* Mesmo minha Mãe dizendo que todo dia é Dia das Mães, preferi postar antes da meia-noite.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Mar

Ele adorava o mar. Adorava as ondas, a brisa, os peixes e até o enjôo que sentia. Gostava tanto de tudo, que finalmente comprou um veleiro e foi navegar.

Descobriu que sua paixão pela imensidão azul beirava a obsessão. Ele queria içar a vela, guiar o leme e até limpar o convés. Tudo sozinho. Tudo ao mesmo tempo.

Não foi à toa que seu barco afundou.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Porteiro

Desde pequeno que o sonho de Paulo era ser porteiro. Queria uma vida igual a deles, conversando com todos, divertindo as crianças e sabendo sobre tudo. Mas ele era tímido, não gostava de futebol e horrível para lembrar de recados.

Pobre Paulo: virou médico.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Casamento

A música começa a tocar. Todos viram para a entrada e se emocionam com a entrada da noiva. A igreja se enche de suspiros enquanto ela caminha até o altar. Elogios sussurrados, familiares emocionados e lágrimas derramadas. Tudo para ela, apenas para ela.

O padre começa seu longo discurso. Falando de Deus e do amor entre homem e mulher. O amor entre ela e seu marido. Palavras bonitas, sensíveis e profundas. Feitas especialmente para ela.

O padre pede as alianças. Uma menina de dois anos aparece na entrada, com as alianças nas mãos e os cachinhos pelos ombros. Ela atravessa a igreja em seu vestidinho rosa, despertando todas as reações possíveis: suspiros, lágrimas, elogios, sorrisos e inveja. Inveja estampada na cara da noiva, que só pensa em esganar sua prima caçula.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Roda Gigante

Ele já havia se apaixonado e perdido. Fazia muito tempo, mas ele continuava em estado de choque: comia mal, dormia mal e vivia mal. Seus amigos insistiram, e finalmente ele tirou férias. Estavam em três em um parque de diversões onde ele não se divertia. Os outros dois queriam a montanha russa, ele só queria andar por aí, e foi o que aconteceu.

Sozinho, caminha pensando em como seria melhor se ela estivesse ali. Vê crianças correndo, e pensa nos filhos que não tiveram. Acha que vai chorar, mas as lágrimas acabaram. Anda em direção a roda gigante, flertando um possível pulo do alto, sorri com a idéia.

Já na roda, sua tristeza desaparece. Ela é linda, a atendente da roda gigante. Seu coração sobe e desce, coincidência engraçada, pensa. Morena com a pele clara, sorrindo para crianças que passam. É ela, pensa, que acabará com a sua amargura.

Ela abre a porta do brinquedo para ele entrar, pensa no que falar, e até tenta falar, mas não consegue. A porta fecha, e ele sobe. Tem um giro inteiro pela frente. Até pode imaginar quando os amigos dele verem os dois. Quando ele a apresentar para os seus pais, e quando seu sobrinho ficar cativado pela nova tia. Burro, pensa, deveria ter lido o nome dela no crachá. É difícil planejar sua vida com alguém sem saber o seu nome.

Gira 180 graus e para. Olha todo o parque do alto, com um sorriso no rosto. Ri sozinho, o que assusta as duas crianças que dividem o banco com ele. Imagina que o seu sorriso deve ser o maior do parque, inclusive em altura, ri de novo da própria piada.

A roda mexe, ele desce. Aproveita o tempo e planeja as frases, ensaia o sorriso e analisa se chama para tomar um sorvete ou para um jantar. Ela gosta de crianças, sorvete então.

A roda desce e para, seu coração faz o mesmo. Quem abre a porta não é ela, mas uma atendente ruiva. Menos bela, e menos apaixonante. A tristeza está voltando quando ele, aborrecido, desce do brinquedo e derruba o celular no chão, aos pés da ruiva. Os dois se abaixam para pegar ao mesmo tempo. Ele sorri para ela. Para quem já planejou tanta coisa, mudar a cor do cabelo não seria um problema.